Sofri violência obstétrica e meu bebê morreu 2 dias depois, relata mãe

 Sofri violência obstétrica e meu bebê morreu 2 dias depois, relata mãe

Dois dias depois perdi meu bebê em casa, formadinho, perfeito.

Quando o teste dá positivo, a mulher se depara com uma enxurrada de dúvidas. Qual será o nome do bebê? E a cor do quarto? Onde vai comprar o enxoval da criança? Quais cuidados precisa ter com o corpo? Entre as inúmeras escolhas que tem que tomar, existe uma que demanda cuidado especial: como será o parto, normal ou cesárea?

O que se vê na maioria dos casos é a realização da cesárea mesmo quando não há risco para mãe e bebê, o que contraria a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a cirurgia seja feita apenas em casos de emergência, sendo a taxa ideal em torno de 15%.

Não se faz parto normal. Conduz-se, ajuda-se, direciona-se. O parto é da mulher. Exceto em situações em que esta esteja inconsciente, ela deve ser a protagonista, havendo um apoio em seu entorno, dada a vulnerabilidade do momento. Esse apoio, antes provido por familiares e parteiras, hoje, em geral, cabe a médicos, enfermeiras e técnicos de enfermagem.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a violência obstétrica como: agressão verbal, procedimentos médico não consentido, violação de privacidade, violência física, a não permissão da presença de acompanhante, mesmo sendo um direito conquistado pela Lei Federal nº 11.108, de 07 de abril de 2005. Outras formas de violência obstétrica são a da não elucidação dos procedimentos que serão feitos, a realização de condutas desnecessárias à mulher, assim como a falta de acesso a exames e consulta pré-natal e puerpério.

No Brasil, trata-se de algo de longo lastro e cujas práticas são generalizadas, como a indução da gestante ou parturiente a “optar” pelo parto cirúrgico e sem o devido esclarecimento quanto aos riscos para a mãe e a criança; na realização de qualquer procedimento sem pedir permissão ou esclarecer, de modo acessível, a sua necessidade; e a tratar a gestante ou parturiente de forma agressiva, não empática, com grosseira, zombeteira, ou promovendo injúria racial, de gênero ou de classe social.

Carol Martins de Santo André teve uma perda gestacional após sentir um desconforto na região abdominal: ‘O médico mal olhou pra mim, não me examinou e disse que nos meus ultrassons não havia feto, sendo que em um deles havia até os batimentos cardíacos.’ Carol foi encaminhada para outro hospital e conta que na consulta pré-natal a médica atrasou 1 hora, mal olhou na cara, não a examinou e não fez nenhum tipo de pergunta, apesar de estar com um inchaço anormal e foi dispensada.

Grávida de 11 semanas e com sangramento, Carol volta ao hospital que havia sido atendida. ‘Não tinha uma cadeira de rodas na entrada. Tenho que tirar senha, passar na recepção pra preencher papel, passar na triagem pra responder milhões de perguntas que já haviam me feito na consulta anterior e esperar muito até ser atendida, como se fosse uma dor de garganta qualquer.’

A médica fez um exame de toque onde concluiu que o útero estava inchado e foi solicitado o retorno para 4 dias, já que não tinham os equipamentos necessários para realizar os exames. ‘Dois dias depois perdi meu bebê em casa, formadinho, perfeito. Tive que ir novamente ao Hospital da Mulher pois estava com hemorragia e quase inconsciente, de tanto sangue que perdi. Desta vez, além de passar na recepção pra preencher papel, passar na triagem pra responder as mesmas milhões de perguntas que já haviam me feito antes, fiquei horas esperando numa cadeira de rodas até me arrumarem um lugar na internação.’ desabafa Carol.

Não foi permitido que a mãe nem o marido entrassem. ‘Fiquei nove dias internada, quase morri de hemorragia, fiz 3 transfusões e uma cirurgia. Me colocaram na maternidade. Teve enfermeira que entrou no quarto perguntando se o bebe estava mexendo. Tudo isso um mês depois que o perdi.’, lamenta a mamãe.


Dia do Parto Normal

Se você está passando por sua gestação, está se planejando para ter um filho ou gosta e se interessa em saber mais sobre o parto mais humanizado, a Semana do Parto Normal será perfeita para você! A Casita (Rua David Campista, 180 – Bairro Jardim Santo André), espaço de gestação, parto e pós-parto, está promovendo uma semana completa, cheia de encontros divertidos e informativos sobre o tema, não somente com profissionais, mas também conhecendo um pouco mais sobre diferentes experiências de outras mamães.

As atividades acontecerão entre os dias 29 de setembro e 05 de outubro. Os encontros serão feitos de forma intimista e virtual, e para participar é necessário se inscrever previamente via WhatsApp. Clique aqui para ver a programação completa!

semana do parto normal da casita no vipzinho


É possível superar uma Perda Gestacional?

Segundo Vanessa Ferreira, psicóloga perinatal, que atua de forma especializada no atendimento de mães e crianças, existe formas de se trabalhar os sentimentos e sensações a ponto de superar o trauma causado pela má conduta dos médicos, porém superar não significa jamais esquecer o ocorrido, visto que esse tipo de violência é algo que marca as mulheres de uma maneira muito profunda, em um de seus momentos mais íntimos e especiais.

Letícia Gomes, psicóloga, que atua no projeto Conversa Entre Marias, complementa  falando sobre a importância do contato entre mães e mulheres que passaram por estas situações. Segundo ela, grupos de apoio pode ser um reforço incrível ao acompanhamento psicológico, pois essas relações e se ver também no problema de outras, auxilia no processo de tomada de consciência e o despertar para os traumas que lhe atingiram.

conversa entre marias no vipzinho

A violência obstétrica é um mal que está presente na prática medicina brasileira, e não é incomum, infelizmente em todos os cantos do país, sendo que muitas mulheres não se darem conta de que sofreram esse tipo de abuso, até conhecerem outras. A Casita reforça sempre às mães, a importância do contato entre as mulheres, e de denunciar, e falar sobre o problema, para que assim seja feito o combate e evitemos, no futuro, de que outras passem pelas mesmas  terríveis experiências.